::: Tirando Pó :::

Pensamentos guardadas em textos engavetados. Sentimentos usados, sensações semi-novas.

8.8.06

Pulada de cerca

- Mas que lugar que você foi escolher, Diego.
- Shhhhhhhh! Tá maluca? Quer que os outros nos reconheçam, não me chame pelo nome.
- Você não tá falando sério, Diego. Se a sua mulher ou o meu marido estivessem na cabine ao lado, eles já teriam entrado aqui.
- Pô, Eduarda! Você quer que o drive-in inteiro nos ouça??!
- Rá, você falou meu nome!
- Droga, isso não vai dar certo...
- Tá bom, Fabrício.
- Quem?
- Fabrício. Vou te chamar de Fabrício. É o nome de um ex meu.
- Nem pensar, você não vai me chamar pelo nome do seu ex! Além do mais eu não tenho cara de Fabrício.
- Contanto que você não me chame por nenhum nome composto, pode usar o que quiser.
- Por que não nome composto?
- É brega. Quase nunca a combinação dá certo e é muito longo na hora de gemer.
- Hum... Gemer, é? Posso te chamar de Sharon.
- Hã? Você vai ficar pensando na Sharon Stone enquanto me beija e eu não posso te chamar de Fabrício?!
- A Sharon não é minha ex!
- Vamos acabar com essa palhaçada e ir ao que interessa. Vem cá me dar um beijo, meu amor.
- Vem você aqui, minha gata. Nem acredito que estamos fazendo isso...
- Eu também estou um pouco nervosa... Mas não consigo mais me controlar!
- Eu nunca traí a...
- Shhhh! Sem nomes! Foi você que falou.
- É mesmo.
- Eu também nunca traí meu marido. Mas é que você é... Não sei explicar...
- Então não pensa, Sharon, me beija.
- Pelo menos me chame de Angelina, que aí eu posso pensar que você é o Brad.
- Por que? Minha aparência não te satisfaz? Você vai pensar em outro?
- É você que está me chamando por outro nome e corta o clima!
- Então, vou te chamar de gatinha...
- Ai, assim, é melhor... Hum... Pega a camisinha, gatinho...
- Você não tem?
- Eu? Claro que não. Eu sou casada, você acha que eu ando com camisinha na bolsa?
- Pô, eu também não tenho.
- Ai, não acredito...
- Espera, tem um telefone ali, vou pedir pra entregarem.
- Você ta só de cueca, cuidado, tem muito mosquito aí fora.
- Alô? É... Você poderia providenciar preservativo, por favor? Ok, obrigado.
- E aí? Não estou vendo nenhuma portinha pra nos entregarem, gatinho...
- Com licença, senhor.
- Que isso??? Minha senhora o que você está fazendo aqui na cabine? Saia já, estou de cueca, pelo amor de Deus!
- O senhor pediu preservativo, eu vim entregar.
- O que???
- Senhora, deseja alguma coisa?
- Er... não, não.
- Fiquem a vontade, se precisarem é só chamar.
- Você viu isso, Eduarda?
- Shhhhh! Claro que vi! Eu não disse que esse lugar era estranho?
- Será que ela gravou nossos rostos?
- Esquece isso, pelo amor de Deus. Relaxa um pouco! Vem aqui, vem...
- Ô, minha gata, hum... Que perfume.... hum...
- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii!
- Que é isso?
- O que?
- Você gritou?
- Não, Diego, ficou maluco.
- Fala baixo! Eu ouvi um grito.
- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiii
- Ouviu?
- Agora eu ouvi! Deve ser alguém na outra cabine.
- Não, vem lá de fora, daquele terreno ali na frente.
- Será que tem alguém morrendo?
- Vamos embora agora, Eduarda. Sério. Vamos sair daqui. E se forem bandidos? Se pularem o muro, entrarem aqui, nos renderem? Vamos sair no jornal! Como vamos nos explicar depois?
- Ai, Diego, eu não acredito no que você está falando.
- Vamos, se vista. Vamos para outro lugar. Pega a camisinha.
- Peraí, o pacote ta rasgado. Cadê o pedaço?
- Droga! Esse pedaço não pode ficar no carro.
- Ai, meu Deus...
- Procure por todos os cantos, Eduarda, todos.
- Achei! ... Não, peraí, não é o mesmo pacote. Não, não. Essa é de outro.
- De outro? Como assim? Com quantos homens você está transando?
- Quis dizer ‘de outra pessoa que tenha vindo aqui’. Não de outro amante meu.
- ah, bem...
- E se fosse? Você é casado, não pode ter ciúme de mim!
- Você também é casada, Eduarda. Que baixaria é essa de ficar saindo com um monte de homens por aí?
- Ah, sair com você não tem problema, né, Diego?
- Eu só tenho você, Eduarda e é a primeira vez que eu faço algo desse tipo.
- Eu também, ora bolas. Ou melhor, estou tentando, mas ta difícil, hein.
- Achei! Vamos.

O casal se vestiu e chegou à portaria para pagar.
- Ô, moço!
- Não deixe que ele veja sua cara, Eduarda!!! Lá vem ele, desliga a luz!
- Tem refrigerante aí, moço?
- Sim, senhora, só um minuto.
- Pergunta dos gritos... Pergunta, Eduarda.
- Diego, por favor, controle-se.
- Pergunta!
- Ta, ta... Ô, moço. O senhor ouviu uns gritos estranhos? Ficamos com medo.
- Ah, são as crianças brincando no playground do prédio ao lado.
- Então, vamos voltar, Eduarda.
- O que aconteceu com o sigilo dos nomes? Fale baixo, estamos na saída e eu já paguei.
- Moço, nós vamos voltar, por favor, me devolva o dinheiro.
- Pois não senhor, fique a vontade.
- Diego, eu não acredito. Que vergonha!
- Ah, vai me dizer que você não quer? Não acabamos o que estávamos fazendo.
- Você é maluco.
- Vem cá, gatinha, vem...
- Hum... Tá bom, vai... Acho que finalmente vamos ficar em paz...
- Ei! Cuidado! Você vai deixar meu pescoço marcado, está louca?
- Meu amor, acho que a nossa tentativa de ser amantes não vai dar certo... Vamos pra casa, Diego
- Shhhh!!! Olha os nomes, olha os nomes...

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